quinta-feira, 19 de março de 2015

TELA AZUL






Meu recente deslumbramento com a qualidade dos livros de Fernanda Torres permitiu que eu olhasse o livro da Maitê (É duro ser cabra na Etiópia) com olhar caridoso, adquirindo-o para o longínquo voo. A leitura diferente e intrigante, com textos de vários autores desconhecidos, rememorou em mim que o meu prazer de ler sempre foi equivalente ao de escrever. Apesar da voracidade para acabar o livro, a rinite estava atacada. Além disso, os últimos dias haviam sido bem cansativos. Decidi, então, tentar cochilar. Fone no ouvido, voo de cruzeiro. O barulho das crianças no assento de trás não era mais tão perceptível. O avião estava acima da enorme nebulosidade e eu observei a luminosidade variando na asa para avaliar possíveis turbulências. Tudo planejado, era hora de tentar dormir, coisa rara para mim em voos. Entre as variadas cochiladas, a mente tentava conciliar o descanso exigido e a consciência plena da situação. Num dos lampejos, após tornar a fechar os olhos, vi tudo azul. Sim, azul! Como uma tela de computador antigo. Totalmente azul! Diante da tela, comecei um monólogo. Eu não fechei os olhos para dormir? Não deveria ser tela preta? Então, eu morri? Minha consciência cristã me dizia que a vida não acaba com a morte. O meu instinto cético dizia que se a vida acaba com a morte, eu jamais poderia ter ciência de que morri, ora bolas. O fato é que eu podia ter morrido. Já ouvir falar que quando um avião bate numa grande tempestade em alta velocidade, o desfecho é trágico. Mas eu não deveria sentir dor, terror e angústia antes de morrer? Ou foi tudo tão rápido que nem deu tempo de acordar? Lembrei que o governador estava sentado quatro cadeiras na minha frente. E para que lembrei isso nessa sensação de morto? Imaginei a notícia nos jornais e o foco todo na morte político. Eu ia ser apenas mais um número nas estatísticas de acidentes aéreos. Só isso? Não, sei que não, tela azul. Minha esposa, com nossa filha em seu ventre, ficaria desesperada. Minha família inteira, inconsolável. Colegas e amigos, estarrecidos. Mas sei que, apesar dos defeitos (que sobejam), minhas virtudes e conquistas seriam exaltadas. Mas eu comecei a duvidar que tinha morrido. A tela azul persistia. Lembrei que forçar as vistas com os olhos fechados possibilita ver uma mistura de cores. Gostava de brincar com isso. Fiz um esforço comprimido as pálpebras, não obtido êxito. A tela azul continuava. Relaxei um pouco e pensei que ela queria me dizer algo. Mas eu não gosto de simbolismos! Sem perceber, surgiu no alto da tela azul um traço preto piscando. Era um cursor. Um cursor! Eu estava eufórico. Ah, a tela azul quer que eu digite... bebidas, Senhor? Acordei com a pergunta da comissária. Coca-Cola, respondi no automático. Eu estava vivo, acordado e não tinha solucionado plenamente o mistério da tela azul. Lembrei o livro da Maitê (aquela capa rosa gritava nas minhas retinas). Decidi continuar a leitura e não mais cochilar. Na sequência das crônicas, já passando do meio do livro, surge uma página azul. Apesar de não ser completamente azul, pois havia branco no meio, a sensação de déjà vu foi inevitável. Consegui ler acima, na tarja azul: INSPIRE-SE. Eu podia escrever na tela azul! Lá no âmago do meu ser, era o que eu queria: voltar a escrever! A tela azul se desfez, ficou roxa, rosa e o melhor: impregnada com meus vocábulos escritos à mão. Obrigado, Maitê, eu voltei a escrever!

domingo, 1 de março de 2015

Amor à beira do rio


Incrível como só percebi o seu olhar de admiração após a bola ter balançado as redes, no ângulo superior direito do goleiro, fruto de um drible entre dois zagueiros e de um chute bem colocado, que o arqueiro teve o desprazer de receber de mim. Naquele beco estreito, colado à trave, defronte ao muro do Shopping Papagaio, ela me avistou pela primeira vez. No mesmo instante em que a bola estufava as redes, descendo, após atingir o seu ponto mais alto, descobria-se o rosto daquela bela mulher, dos pés à cabeça, como se a esfera a tivesse descortinado, visto que se encontrava exatamente atrás das traves, protegida pelo alambrado. Enquanto eufóricos me abraçavam os companheiros de time, comemorando a pintura de gol que eu fiz, fiquei extasiado, anestesiado com aquele olhar que me encarava fora de campo. Acenei com a mão para cumprimentá-la e fui correspondido com uma piscada do seu olho esquerdo, enobrecido por um tom castanho claro, daquele que faz paralisar qualquer pessoa que se atreva a fitá-lo por mais de cinco segundos. Apesar da distância – estava em campo jogando, enquanto ela estava me assistindo do lado de fora -, fui vítima de tal feitiço. Fixei meus olhos nos seus e, desde então, não acertei mais nada no jogo: a bola passava por baixo das minhas pernas; já não conseguia mais marcar nenhum adversário; chutei todas as bolas para longe do gol quando tive oportunidade e errei passes cruciais que geraram jogadas de contra-ataque do time adversário. Por não mais conseguir recobrar a concentração necessária a um atleta em competição, pedi para sair da partida, antes que os adversários fizessem o sétimo gol.
Juçara estava a me aguardar. Sorrindo quase que incontrolavelmente, veio em minha direção e se apresentou. Só neste instante conheci o seu nome. Disse-me que o gol que fiz a havia atraído para me ver jogar e me conhecer. Impressionou-se e ficou completamente feliz com o fato de ter me desconcertado após me lançar aquele fatídico olhar. Havia um quê de mistério em suas expressões faciais, um sorriso muito fácil, mas que, ao mesmo tempo, não demonstrava abertura suficiente para uma aproximação imediata. Conversamos por alguns minutos e marcamos um encontro para o dia seguinte.
Encontramo-nos num lugar especial. Para ela, não havia nenhum outro ambiente tão propício quanto aquele para degustar uma agradável companhia. Saboreamos nossas afinidades e nossos sorrisos juntos, enquanto experimentávamos o exótico sorvete de kiwi com cupuaçu, que, segundo ela, era servido apenas ali, na melhor sorveteria do mundo: A Sorveteria da Ribeira. Achei engraçada a forma como teceu elogios ao estabelecimento, narrando toda a história da sua fundação, desde 1931, até os dias atuais. E continuou prosseguindo em suas explicações e em seu acentuado orgulho pela região, citando de Gilberto Gil a Caetano dentre as grandes celebridades que não vivem sem um sorvetinho dali. Mencionou outras personalidades, internacionais inclusive, e só não deu prosseguimento por que a interrompi, mudando de assunto bruscamente e já apontando para os barcos azuis que, ancorados, flutuavam no mar defronte à Sorveteria. De chofre, e parecendo pressentir a minha manobra, desatou-se em elogiar o inventor da travessia marítima Ribeira-Plataforma, como sendo o mais importante meio de transporte da cidade. Discorreu sobre o preço acessível da travessia, a beleza dos barcos, a qualidade da água e a oportunidade que era dada aos Plataformenses – palavras dela – de conhecerem a Ribeira a preço reles e em condições turísticas.
O infortúnio continuava a cada novo encontro. Longe de ser uma mulher desprezível; antes pelo contrário. Era linda, dona de uma beleza que irradiava vivacidade, alegria e feminilidade. Tinha ainda os mesmos gestos sutis de sua tenra idade. O mesmo sorriso contagiante de uma criança brincalhona. Era próprio de sua natureza também, além de tais características infantis, o jeito irascível de mulher decidida, o corpo escultural de uma modelo e um olhar sedutor, típico das mulheres que atraem quando e como querem. Afinal, morena como era, encaracolados como eram os seus cabelos, não havia espaço para qualquer descrédito em sua beleza. Mas havia nela algo inquebrantável, que só percebi à medida em que multiplicávamos os nossos encontros.
O sentimento que Juçara sentia pelo bairro da Ribeira era incomparavelmente maior ao que nutria pela cidade, pelo estado ou pelo país em que vivia. E era exatamente essa compaixão que a fazia enxergar determinadas coisas de maneira exagerada. Filha de pais bairristas tornou-se desdenhosa com os outros lugares da cidade assim que soube a origem do seu nome. Nunca esquecera as palavras que o seu pai lhe dissera quando criança: “Filhinha, tens o nome de uma heroína. Cuida-te para que faças jus ao teu nome. Jussara foi uma das principais fundadoras do nosso bairro, juntamente com o seu esposo, o nosso ilustríssimo Alcebíades Barata. Juntos, entulharam boa parte das ruas da Ribeira que, há muito tempo, quando ainda existiam casas de palafitas, eram tomadas por enormes porções de água. Lutaram pelo primeiro ponto de ônibus do bairro – conseguido num 11 de maio de um ano desconhecido -, batalharam por melhores condições de vida, por pavimentação e saneamento básico. Participaram, em 25 de dezembro, de uma solenidade que deu àquelas terras baixas das margens do rio a alcunha de Ribeira. Os nossos heróis e essas datas se transformaram, cada um, em nomes de ruas aqui do nosso lindo bairro, filhinha”. Juçara nunca se perguntou se essa história era verídica, ou se havia de fato como comprová-la. Não se importava com isso. Por mais que parecesse uma lenda, ela adotava o conto como real e adorava viver assim.
Enquanto caminhávamos do Largo do Papagaio à Rua Porto dos Tainheiros, passeio que havíamos planejado fazer, Juçara me contava sobre a importância da Ribeira para a cidade de Salvador. E falava essas coisas de modo natural, como se tudo que dissesse fizesse o maior sentido, e que qualquer discordância do seu modo de pensar merecesse ser repreendido no ato. Disse-me que em qualquer lugar da cidade havia um ônibus para a Ribeira. E mais: dizia que a Ribeira era especial, porque quem deste transporte se utilizasse, teria intuito de ir exatamente para lá, pois aquele era um bairro-fim, não uma mera passagem para se dirigir a outros lugares. Após cada argumentação, que julgava ser infalível para comprovar a sua tese, ela parava, me olhava e fazia uma cara de quem perguntava: “você não acha que é exatamente assim como estou dizendo?”. E quanto mais falava bem do seu lugar, menos rápido andava. E outras ideias lhe roubavam o pensamento. Logo após a teoria do ônibus, me veio com a da praia.  Nesta, afirmava que águas de verdade são aquelas que, quando muitas, proporcionam o banho, o frescor e o bem-estar, mas, quando poucas, possibilitam a pescaria, a coleta de mariscos e outras iguarias do mar para o morador que tão bem cuida de sua própria terra. Como se não bastasse tal alegação, acrescentava que o melhor campeonato de futebol de areia acontecia por ali, aos domingos, por volta das seis horas da manhã. Segundo ela, o campeonato era tão respeitado, que até os próprios donos de barracas e mesas, que vendiam suas cervejas na areia, desde cedo, ávidos pelo lucro proveniente do sol escaldante da Cidade Baixa, assistiam, empolgados, aos jogos e não se importavam em perder quase duas horas de trabalho, devido à ocupação do espaço pelos jogadores. Findo o passeio, fiquei com a impressão de que já conhecia aquele bairro de uma ponta a outra, sem ao menos tê-lo percorrido por completo.
Juçara sabia exatamente como não confundir-se entre a Ribeira e a Massaranduba, tinha a noção exata do limite que separava o seu bairro do Uruguai, do Bonfim e do Caminho de Areia.  Simplesmente odiava quem dizia viver na Ribeira, quando, na verdade, morava numa rua qualquer da Massaranduba. Não dava importância a quem dizia que a sua praia era imprópria para banho, ou que, em tempos de chuva, o seu bairro se tornava um dos mais alagados da cidade. Desfez amizades, sem o pesar da consciência, com conhecidos que preferiram se mudar dali para lugares não muito longínquos. Dissera-me, certa vez, que todos os seus antigos namorados foram jovens ribeirinhos. Quanto menos amavam a sua terra, menos ela os amava.
Quando, após anos juntos, eu te pronunciei que não havia mais como continuar o nosso relacionamento, ela me disse: “Vai, vai embora! Você não me entende! Aliás, ninguém me entende. Ninguém sente a brisa da Ribeira como eu sinto. Ninguém ama tanto esses contornos como eu. Ninguém assiste tantos jogos no Campo do Lasca como eu assisto. Pode ir embora! Você não sabe o que é chorar de emoção ao ver a sua terra adorada do alto de um avião. Não sabe o que é se banhar em águas mornas, em pleno meio-dia, e voltar para casa com a sensação de ter rejuvenescido a alma. Não conhece a emoção que pulsa no coração quando, em volta de uma viagem pelo mar, se avista o lugar que se ama. Sei que me tens por louca, ou desvairada, mas, o que sinto por este espaço, você não conseguirá descrever e nem compreender a intensidade de tamanha emoção. Amo a Ribeira como a mãe ama um filho. Amo esta ponta do mapa de Salvador. Amo essa gente, essas ruas, esses costumes. Sei que vai embora daqui, mas também tenho a certeza de que irá guardar cada cheiro, cada sensação, cada lugar e cada gesto que você percebeu aqui. Esse lugar jamais sairá de dentro de você. E é assim que deverá ser. Só assim você irá perceber que tudo o que eu te disse não são devaneios meus, mas percepções. Percepções de quem abre o coração para o amor à terra que tão bem o acolheu. Quando você estiver longe daqui, vai entender o que te digo. Vai sentir falta desse vento, dessa sombra e até mesmo dessa algazarra que encontramos nos finais de semana. Você vai se lembrar de como era bom correr na praia à noite, andar de bicicleta de manhã cedo e almoçar aquela moqueca de camarão em um de nossos restaurantes. Sei que sentirá falta deste pedaço de Brasil. Eu poderia aceitar até uma traição sua, desde que fosse com uma ribeirinha. Mas isso não. Abandonar o nosso lugar já é demais. Vai, vai embora! Você não sabe amar! Achei que o nosso sentimento fosse como o das pinaúnas para com os pés dos nossos banhistas. Mas não! Lembre-se de tudo o que te disse e depois se questione por que você sente algo tão forte quando vê um letreiro de ônibus com o nome deste bairro”.  Após aquele longo discurso, percebi que as suas palavras incutiram em mim a certeza de que todo aquele sentimento pela Ribeira jamais me deixariam, onde quer que eu estivesse.  Ela parecia estar mesmo certa, com a exceção de seus exageros: amor de verdade é aquele à beira do rio.  Que falta me faz a Ribeira!



domingo, 17 de agosto de 2014

Bom dia, Pernambuco

Nutro um amor secreto pelas suas terras e pelo seu povo. Sinto-me agora ainda mais irmanado, ao ver nas ruas da capital gente sua de todos os matizes nos enchendo o peito de esperança.

Não vamos desistir do Brasil.

RF

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Reforço no time dos imortais

Rafael França

Quando, há dois anos, André Uzêda, este jovem e já notável jornalista baiano e também um grande amigo, surgiu ligeiro, apesar de insuspeito, diante da minha bancada na Redação, desconfiei de imediato que ele conseguira com alguém o endereço eletrônico do meu ídolo. Ao me confirmar a adivinhação, não sei se notou que não registrei o email do escritor em qualquer que fosse o suporte: havia um lugar já preparado na memória para guardar aquele portento. Como demorei a falar ao escrevinhador, depois de um tempo anotei aquele presente em algum arquivo de texto, e passei cerca de dois meses conferindo a sua integridade, temeroso por constatar um furto ou qualquer sumiço de um daqueles caractéres, meditando ao mesmo tempo sobre quais palavras escolheria para lhe falar uma primeira vez. Ensejado por uma enfermidade do também escritor Luís Fernando Veríssimo, em novembro de 2012, arrisquei uma mensagem ao meu guru dizendo que temia pela morte dele e que, por isso, não mais adiaria a declaração derramada de fã que ele leria logo mais adiante, no corpo do mesmo email. Recebi uma resposta amistosa que confirmou a humildade antes por outrém tão alardeada a respeito do meu interlocutor. "Obrigado pelos comentários sobre meus livros, todos eles muito envaidecedores. Mas não me acho tão importante assim", escreveu-me. Daí em diante, enchi a caixa de entrada do email dele com mais elogios, com perguntas e com provocações. Encarnei um chato típico e contei aos conhecidos, com uma convicção e um orgulho juvenis, que era amigo de João Ubaldo Ribeiro. Espalhei por aí uma certa Ubaldomania e hoje pela manhã, para a minha completa paralisação, fui bombardeado pela notícia que amigos e familiares, todos conhecedores da minha admiração, me traziam tão cuidadosa e solenemente. Uzêda me disse que agora teremos uma lacuna intelectual que jamais será substituída. Vitor Villar, outro amigo e também um grande jornalista, bradou pela decretação imediata de um luto universal. Meu pai me ligou e me ajudou a chorar. Meu primo Everton narrou ao vivo, por meio do moderníssimo Whats App, o modo como o seu professor de Português se perdeu durante a aula e passou a falar de Ubaldo. Sabiamente, Tiago França disse que o legado dele ficará e que a sua obra voltará a fervilhar. Minha mãe e os meus irmãos, que muito já me viram parado diante do Youtube para rever entrevistas e aparições televisivas do itaparicano, lamentam como se tivéssemos perdido uma pessoa muito próxima, de fato. E, a essa altura, a pouco mais de uma hora do início do seu velório na Academia Brasileira de Letras, enquanto não sei direito o que escrever, paro diante da Globo News, que volta e meia entra com depoimentos ao vivo sobre o cara que, involuntariamente, por meio sobretudo dos consagrados Sargento Getúlio e Viva o Povo Brasileiro, me ensinou a ter coragem para escrever. Há poucos minutos, Ignácio de Loyola Brandão declarou que Ubaldo é o mais brasileiro dos escritores brasileiros. Um cidadão preocupado em plasmar a nossa identidade. Os consagrados Zuenir Ventura, Veríssimo e Carlos Heitor Cony também depuseram. Não acerto mais o que falar, mas, com o secreto e ao mesmo tempo declarado sentimento de amigo, vou continuar a propagandear sobre a obra ubaldiana. João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro nasceu a 23 de janeiro de 1941; aprendeu a ler e a escrever por causa do rigor do seu pai; iniciou-se nas letras após se encantar por Monteiro Lobato; vestiu-se de mulher em carnavais; levou moças para ver o pôr do sol na Lagoa do Abaeté; recitou poetas na frente da antiga Livraria Civilização Brasileira; mentiu para os mais jovens; leu Sartre; andou com pintores, escultores, mágicos de rua, stalinistas e trotskistas; foi muito amigo dos amigos; torcedor do Vitória e do Vasco; formou-se em Direito; meteu-se em expedições de pesca; pesquisou sobre a vida; registrou científicamente o nome de um protozoário; participou da primeira eleição municipal da Ilha de Itaparica; orgulhou-se por entrever o travessão nos discursos orais do seu pai; rodou o mundo todo, aprendeu a falar e a escrever em alemão, em espanhol e em inglês, mas manteve a sua baianidade; não conseguiu ser comunista; tem a sua obra premiada em todo o mundo; celebrizou Itaparica e engrandeceu ainda mais a Bahia; convidou-me a visitá-lo em Itaparica; surpreendeu-me com emails que não apenas respondiam ao que eu escrevia; confessou-me estar escrevendo um romance; cumprimentou-me fraternalmente quando me reconheceu na Bienal do Livro da Bahia; é baiano, acre, polifônico, barítono, meu amigo, meu ídolo e se iniciou na imortalidade neste 18 de julho de 2014.

sábado, 31 de maio de 2014

Sábado

O poeta flana pela cidade. Flanava, minha senhora, flanava; hoje não mais: ele vive enclausulado, ingere comida industrializada, arrota horrendamente, confere continuamente o status do seu Facebook e se diverte com a tevê; quando, enfim, se descobre solitário, desenvolve amor por uma palavra insólita, protege-a no pensamento, busca pelo seu inteiro significado no dicionário online, faz dela o centro do mundo e só então se senta para escrever. Já não gosta de rimas, porém, e muito pouco entende das métricas tradicionais, quiçá do que teria sido o barroco ou qualquer outro movimento literário impregnado de algum sentido. É bem verdade que ainda carregue na caixola um compêndio, mas em seu imaginário sobrevivem somente anotações esparsas, coisas ditas em Seriados americanos imiscuídas a trechos de leituras longínquas, tenham sido esses trechos saídos de James Joyce, tenham sido trechos com o tempo obscurecidos pela hermética sintaxe de um escritor angolano ou até mesmo sejam trechos retirados de uma letra bonitinha de uma frase empolada de um cidadão cosmopolita qualquer que tenha sido meteoricamente promovido a best-seller. Inconscientemente, segue o poeta do nosso tempo reinventando uma nobre arte. E assim, com os olhos fixados no gelo cujo esmorecimento ajuda a descolorir o que sobra no fundo do copo de uma dose de whisky, segue também a afundar a sua imaginação em questões mundiais cada vez mais proeminentes, reflexões que intercala com o seu idílico estudo sobre a formação e o desenvolvimento dos vértices feminis que as calças jeans mais modernas têm ajudado a rabiscar. Afoga-se ainda, pois, por demais nesse interesse o poeta, e por isso, portanto, ainda está ele entre nós, mesmo que já não morra de fome. Prova-nos a cada dia o poeta ser mesmo imortal.