quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

SOBRE LUTO E MORTE


“[...]Também pôs no coração do homem o anseio pela eternidade[...] Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração.

                                                                   Sábio Salomão


Todo mundo já ouviu que a coisa mais certa na vida é a morte. Desse modo, saber que em algum momento ela vai ocorrer para todos é algo tão previsível que deveríamos estar preparados para esse momento. Na prática, não é o que acontece, principalmente no nosso mundo ocidental. Eu cresci evitando velórios e funerais, como a maioria das pessoas que conheço. E não tive tantas oportunidades assim (ainda bem), visto que minha família tem se demonstrado longeva: tenho avós e avôs paternos e maternos vivos. Minha mãe sempre me dizia que ninguém vai a velório por que gosta (devem haver exceções, obviamente), mas em consideração a quem se foi ou ao menos a quem ficou enlutado por essa perda. O luto é um sentimento de tristeza profunda, que apenas quem sofreu sabe o que é. O luto costuma variar de pessoa para pessoa, visto que há quem supere com mais facilidade, há quem nunca supere e há quem passe do luto à depressão num caminho sem volta. Essa variedade depende do que hoje chamam de inteligência emocional, conceito inventado por Daniel Goleman, e das circunstâncias que envolvem o luto. Fato incontestável é que a grande maioria de nós ocidentais não está preparada para este evento. Você está? Eu não estou preparado para perda de meus avós, que já ultrapassaram a oitava década de vida, que dirá de pais, tios, primos, irmãos, esposa ou filhos. De certo modo cronológico, aceitar a perda do mais velho é relativamente mais fácil, mas não significa que isso torne esse luto menos doloroso, já que quanto mais tempo de vida, mais tempo de relação/afeição teremos. Por outro lado, aceitar as mortes trágicas (tão comuns em nosso país, infelizmente), principalmente de jovens e crianças, é algo extremamente difícil, que costuma ser um processo demorado e que gera muitas externalidades negativas (depressão, crises). Estou escrevendo essa reflexão como um leigo no assunto, do ponto de vista psicológico e filosófico. A minha visão é de um humano, que não sabe o que vai acontecer, não sabe como reagir, não sabe como ajudar e acha necessário refletir sobre um assunto totalmente escanteado em nossa cultura. A forma de vivenciar o luto varia muito entre as culturas e as religiões do mundo. Da mesma maneira, a preparação para a própria morte varia. Não queremos nem cogitar isso, porque dá mau agouro, alguns mais místicos vão dizer, ou porque isso é perda de tempo, diriam os mais adeptos do carpe diem. Marie de Hennezel, psicóloga experiente em cuidados paliativos, e Jean-Yves Leloup, teólogo e psicólogo, fazem uma excelente reflexão sobre a “A arte de morrer”, baseada principalmente nas tradições religiosas e na espiritualidade humanista. Para eles, o mundo que nos rodeia não nos ensina a morrer e tudo é feito para esconder a morte. Alguém duvida? Mesmo nos meios religiosos, onde se costuma crer em uma vida pós-morte, há uma enorme dificuldade em se preparar para a morte. O cristão sabe que morrer é lucro, nos dizeres do apóstolo Paulo, mas nunca quer aceitar esse lucro. A maioria das pessoas crê num lugar melhor após a morte, mas prefere ficar aqui, no mundo tenebroso. Talvez toda essa dificuldade de aceitar a morte esteja ligada ao fato de que acreditemos que nascemos para sermos eternos, embora tenhamos a certeza da impossibilidade disso. Eu ainda não aceito a morte, ainda não estou preparado para o luto, ainda não estou preparado para o término da minha vida. Mas reconheço que preciso fazer tais coisas, pois a inevitável e inexorável morte pode tardar, mas ela não falha. 

domingo, 31 de dezembro de 2017

O LIMITE DA DESESPERANÇA



Eu não queria escrever esse texto. Eu queria muito voltar a escrever, mas não escrever sobre esse tema. É pura ilusão acreditar que um escritor escolhe o que vai escrever. Quando pensei nesse texto, eu ainda não lembrava que tinha escrito algo mais ou menos semelhante aqui mesmo no blog, há bastante tempo, mais precisamente em 03/01/2009, uma Crônica da Virada 2008/2009. Depois que esse texto se grudou em mim e me exigiu que o escrevesse, eu lembrei a supracitada crônica e a reli. Quase 8 anos depois, eu reconheço que mudei. Não escreveria aquele texto da mesma maneira. Mas o cerne não mudou, nadinha mesmo. O tal do réveillon, palavra inventada pelos franceses, significa e sugere despertar, acordar, reanimar! Quem desperta, via de regra, é o novo ano, basicamente nos obrigando a grafar as datas diariamente com mudança nos seus últimos algarismos. Com mandiga ou sem mandiga, com reza ou sem reza, com oração de poder ou sem oração de poder, teremos em 2018: violência urbana desenfreada, morte por bala perdida, acidentes fatais nas estradas, estradas caindo aos pedaços, mortes nos hospitais por falta de recursos, políticos corruptos se reelegendo, políticos corruptos sendo presos, políticos corruptos sendo rapidamente soltos, políticos corruptos recebendo indulto. É sério: na hora da virada não importa a cor da sua roupa, sua oferenda, seu badulaque religioso, sua superstição, sua oração, sua religião, seu pensamento positivo! Eu passei nos últimos anos por uma transformação mais otimista, decorrente de muitas conquistas e, principalmente, pela formação de uma família. Ter filhos nos torna obrigatoriamente esperançosos quanto a um futuro melhor. Passei a lutar contra meu bom e velho pessimismo, que sempre rotulei de realismo. Busquei em vários lugares fios de esperança de um futuro melhor. Sim, aquele futuro de paz, de amor, de união. Você provavelmente já ouviu falar nele. A minha fé cristã ensina que esse mundo perfeito só existe na vida pós-morte, mas ela também ensina a buscar a perfeição por aqui, ainda que isso seja impossível de alcançar. Para me curar do meu pessimismo, eu comecei a evitar tudo o que o instigava: parei de ver jornal, evitei política ao máximo, sumi das inócuas discussões nas redes sociais e, o pior, parei de refletir/divagar/escrever sobre o futuro. Não deu certo, eu preciso reconhecer.  Não dá para virar uma ilha feliz nesse mundo caótico! A desesperança foi voltando aos poucos, com força, com aquela sensação de impotência que nos detona. Voltei a ver jornal e acompanhar as mídias sociais: voltei a me estressar com a politicagem nacional, com o desdém aos massacres na África e no Oriente Médio, com o jornalismo sempre parcial, com a nossa guerra urbana diária, com a total falta de amor das pessoas, com o uso abusivo e indiscriminado das religiões para manipular as pessoas. Tomei minha droga muito além da sua janela terapêutica e senti o limite da toxicidade ser ultrapassado. Mas eu queria era encontrar o limite da desesperança. Ele existe? Eu acho que não, infelizmente. Sempre tem uma tragédia a mais para nos descompensar. E como viver sem esperança? Ela não é justamente a mola propulsora da vida? Não sei, acho que a maioria das pessoas apenas sobrevivem, como a inolvidável Macabéa de Clarice; se pensassem/refletissem em tudo isso aqui, o melhor seria mesmo o final de estrela, esmagados por um carro sob o céu chuvoso. Para não pirar, busquei amparo no outro significado do réveillon: reanimar! Tornar a ter ânimo, coisa nada fácil. O ânimo retorna com reflexão e atitude. Aquelas pequenas coisas fundamentais: relacionamento familiar, amizade, fé, projetos e sonhos. Com foco, o ânimo vai surgindo, mobilizando, transformando. Talvez, digo talvez, ele seja capaz de frear o trem descontrolado da desesperança. Feliz 2018, eu posso desejar e desejo. Vamos reanimar a esperança de um mundo melhor, de um futuro mais aprazível. Que essa fagulha possa, ao menos, aquecer e empolgar os nossos corações!

quinta-feira, 19 de março de 2015

TELA AZUL






Meu recente deslumbramento com a qualidade dos livros de Fernanda Torres permitiu que eu olhasse o livro da Maitê (É duro ser cabra na Etiópia) com olhar caridoso, adquirindo-o para o longínquo voo. A leitura diferente e intrigante, com textos de vários autores desconhecidos, rememorou em mim que o meu prazer de ler sempre foi equivalente ao de escrever. Apesar da voracidade para acabar o livro, a rinite estava atacada. Além disso, os últimos dias haviam sido bem cansativos. Decidi, então, tentar cochilar. Fone no ouvido, voo de cruzeiro. O barulho das crianças no assento de trás não era mais tão perceptível. O avião estava acima da enorme nebulosidade e eu observei a luminosidade variando na asa para avaliar possíveis turbulências. Tudo planejado, era hora de tentar dormir, coisa rara para mim em voos. Entre as variadas cochiladas, a mente tentava conciliar o descanso exigido e a consciência plena da situação. Num dos lampejos, após tornar a fechar os olhos, vi tudo azul. Sim, azul! Como uma tela de computador antigo. Totalmente azul! Diante da tela, comecei um monólogo. Eu não fechei os olhos para dormir? Não deveria ser tela preta? Então, eu morri? Minha consciência cristã me dizia que a vida não acaba com a morte. O meu instinto cético dizia que se a vida acaba com a morte, eu jamais poderia ter ciência de que morri, ora bolas. O fato é que eu podia ter morrido. Já ouvir falar que quando um avião bate numa grande tempestade em alta velocidade, o desfecho é trágico. Mas eu não deveria sentir dor, terror e angústia antes de morrer? Ou foi tudo tão rápido que nem deu tempo de acordar? Lembrei que o governador estava sentado quatro cadeiras na minha frente. E para que lembrei isso nessa sensação de morto? Imaginei a notícia nos jornais e o foco todo na morte político. Eu ia ser apenas mais um número nas estatísticas de acidentes aéreos. Só isso? Não, sei que não, tela azul. Minha esposa, com nossa filha em seu ventre, ficaria desesperada. Minha família inteira, inconsolável. Colegas e amigos, estarrecidos. Mas sei que, apesar dos defeitos (que sobejam), minhas virtudes e conquistas seriam exaltadas. Mas eu comecei a duvidar que tinha morrido. A tela azul persistia. Lembrei que forçar as vistas com os olhos fechados possibilita ver uma mistura de cores. Gostava de brincar com isso. Fiz um esforço comprimido as pálpebras, não obtido êxito. A tela azul continuava. Relaxei um pouco e pensei que ela queria me dizer algo. Mas eu não gosto de simbolismos! Sem perceber, surgiu no alto da tela azul um traço preto piscando. Era um cursor. Um cursor! Eu estava eufórico. Ah, a tela azul quer que eu digite... bebidas, Senhor? Acordei com a pergunta da comissária. Coca-Cola, respondi no automático. Eu estava vivo, acordado e não tinha solucionado plenamente o mistério da tela azul. Lembrei o livro da Maitê (aquela capa rosa gritava nas minhas retinas). Decidi continuar a leitura e não mais cochilar. Na sequência das crônicas, já passando do meio do livro, surge uma página azul. Apesar de não ser completamente azul, pois havia branco no meio, a sensação de déjà vu foi inevitável. Consegui ler acima, na tarja azul: INSPIRE-SE. Eu podia escrever na tela azul! Lá no âmago do meu ser, era o que eu queria: voltar a escrever! A tela azul se desfez, ficou roxa, rosa e o melhor: impregnada com meus vocábulos escritos à mão. Obrigado, Maitê, eu voltei a escrever!

domingo, 1 de março de 2015

Amor à beira do rio


Incrível como só percebi o seu olhar de admiração após a bola ter balançado as redes, no ângulo superior direito do goleiro, fruto de um drible entre dois zagueiros e de um chute bem colocado, que o arqueiro teve o desprazer de receber de mim. Naquele beco estreito, colado à trave, defronte ao muro do Shopping Papagaio, ela me avistou pela primeira vez. No mesmo instante em que a bola estufava as redes, descendo, após atingir o seu ponto mais alto, descobria-se o rosto daquela bela mulher, dos pés à cabeça, como se a esfera a tivesse descortinado, visto que se encontrava exatamente atrás das traves, protegida pelo alambrado. Enquanto eufóricos me abraçavam os companheiros de time, comemorando a pintura de gol que eu fiz, fiquei extasiado, anestesiado com aquele olhar que me encarava fora de campo. Acenei com a mão para cumprimentá-la e fui correspondido com uma piscada do seu olho esquerdo, enobrecido por um tom castanho claro, daquele que faz paralisar qualquer pessoa que se atreva a fitá-lo por mais de cinco segundos. Apesar da distância – estava em campo jogando, enquanto ela estava me assistindo do lado de fora -, fui vítima de tal feitiço. Fixei meus olhos nos seus e, desde então, não acertei mais nada no jogo: a bola passava por baixo das minhas pernas; já não conseguia mais marcar nenhum adversário; chutei todas as bolas para longe do gol quando tive oportunidade e errei passes cruciais que geraram jogadas de contra-ataque do time adversário. Por não mais conseguir recobrar a concentração necessária a um atleta em competição, pedi para sair da partida, antes que os adversários fizessem o sétimo gol.
Juçara estava a me aguardar. Sorrindo quase que incontrolavelmente, veio em minha direção e se apresentou. Só neste instante conheci o seu nome. Disse-me que o gol que fiz a havia atraído para me ver jogar e me conhecer. Impressionou-se e ficou completamente feliz com o fato de ter me desconcertado após me lançar aquele fatídico olhar. Havia um quê de mistério em suas expressões faciais, um sorriso muito fácil, mas que, ao mesmo tempo, não demonstrava abertura suficiente para uma aproximação imediata. Conversamos por alguns minutos e marcamos um encontro para o dia seguinte.
Encontramo-nos num lugar especial. Para ela, não havia nenhum outro ambiente tão propício quanto aquele para degustar uma agradável companhia. Saboreamos nossas afinidades e nossos sorrisos juntos, enquanto experimentávamos o exótico sorvete de kiwi com cupuaçu, que, segundo ela, era servido apenas ali, na melhor sorveteria do mundo: A Sorveteria da Ribeira. Achei engraçada a forma como teceu elogios ao estabelecimento, narrando toda a história da sua fundação, desde 1931, até os dias atuais. E continuou prosseguindo em suas explicações e em seu acentuado orgulho pela região, citando de Gilberto Gil a Caetano dentre as grandes celebridades que não vivem sem um sorvetinho dali. Mencionou outras personalidades, internacionais inclusive, e só não deu prosseguimento por que a interrompi, mudando de assunto bruscamente e já apontando para os barcos azuis que, ancorados, flutuavam no mar defronte à Sorveteria. De chofre, e parecendo pressentir a minha manobra, desatou-se em elogiar o inventor da travessia marítima Ribeira-Plataforma, como sendo o mais importante meio de transporte da cidade. Discorreu sobre o preço acessível da travessia, a beleza dos barcos, a qualidade da água e a oportunidade que era dada aos Plataformenses – palavras dela – de conhecerem a Ribeira a preço reles e em condições turísticas.
O infortúnio continuava a cada novo encontro. Longe de ser uma mulher desprezível; antes pelo contrário. Era linda, dona de uma beleza que irradiava vivacidade, alegria e feminilidade. Tinha ainda os mesmos gestos sutis de sua tenra idade. O mesmo sorriso contagiante de uma criança brincalhona. Era próprio de sua natureza também, além de tais características infantis, o jeito irascível de mulher decidida, o corpo escultural de uma modelo e um olhar sedutor, típico das mulheres que atraem quando e como querem. Afinal, morena como era, encaracolados como eram os seus cabelos, não havia espaço para qualquer descrédito em sua beleza. Mas havia nela algo inquebrantável, que só percebi à medida em que multiplicávamos os nossos encontros.
O sentimento que Juçara sentia pelo bairro da Ribeira era incomparavelmente maior ao que nutria pela cidade, pelo estado ou pelo país em que vivia. E era exatamente essa compaixão que a fazia enxergar determinadas coisas de maneira exagerada. Filha de pais bairristas tornou-se desdenhosa com os outros lugares da cidade assim que soube a origem do seu nome. Nunca esquecera as palavras que o seu pai lhe dissera quando criança: “Filhinha, tens o nome de uma heroína. Cuida-te para que faças jus ao teu nome. Jussara foi uma das principais fundadoras do nosso bairro, juntamente com o seu esposo, o nosso ilustríssimo Alcebíades Barata. Juntos, entulharam boa parte das ruas da Ribeira que, há muito tempo, quando ainda existiam casas de palafitas, eram tomadas por enormes porções de água. Lutaram pelo primeiro ponto de ônibus do bairro – conseguido num 11 de maio de um ano desconhecido -, batalharam por melhores condições de vida, por pavimentação e saneamento básico. Participaram, em 25 de dezembro, de uma solenidade que deu àquelas terras baixas das margens do rio a alcunha de Ribeira. Os nossos heróis e essas datas se transformaram, cada um, em nomes de ruas aqui do nosso lindo bairro, filhinha”. Juçara nunca se perguntou se essa história era verídica, ou se havia de fato como comprová-la. Não se importava com isso. Por mais que parecesse uma lenda, ela adotava o conto como real e adorava viver assim.
Enquanto caminhávamos do Largo do Papagaio à Rua Porto dos Tainheiros, passeio que havíamos planejado fazer, Juçara me contava sobre a importância da Ribeira para a cidade de Salvador. E falava essas coisas de modo natural, como se tudo que dissesse fizesse o maior sentido, e que qualquer discordância do seu modo de pensar merecesse ser repreendido no ato. Disse-me que em qualquer lugar da cidade havia um ônibus para a Ribeira. E mais: dizia que a Ribeira era especial, porque quem deste transporte se utilizasse, teria intuito de ir exatamente para lá, pois aquele era um bairro-fim, não uma mera passagem para se dirigir a outros lugares. Após cada argumentação, que julgava ser infalível para comprovar a sua tese, ela parava, me olhava e fazia uma cara de quem perguntava: “você não acha que é exatamente assim como estou dizendo?”. E quanto mais falava bem do seu lugar, menos rápido andava. E outras ideias lhe roubavam o pensamento. Logo após a teoria do ônibus, me veio com a da praia.  Nesta, afirmava que águas de verdade são aquelas que, quando muitas, proporcionam o banho, o frescor e o bem-estar, mas, quando poucas, possibilitam a pescaria, a coleta de mariscos e outras iguarias do mar para o morador que tão bem cuida de sua própria terra. Como se não bastasse tal alegação, acrescentava que o melhor campeonato de futebol de areia acontecia por ali, aos domingos, por volta das seis horas da manhã. Segundo ela, o campeonato era tão respeitado, que até os próprios donos de barracas e mesas, que vendiam suas cervejas na areia, desde cedo, ávidos pelo lucro proveniente do sol escaldante da Cidade Baixa, assistiam, empolgados, aos jogos e não se importavam em perder quase duas horas de trabalho, devido à ocupação do espaço pelos jogadores. Findo o passeio, fiquei com a impressão de que já conhecia aquele bairro de uma ponta a outra, sem ao menos tê-lo percorrido por completo.
Juçara sabia exatamente como não confundir-se entre a Ribeira e a Massaranduba, tinha a noção exata do limite que separava o seu bairro do Uruguai, do Bonfim e do Caminho de Areia.  Simplesmente odiava quem dizia viver na Ribeira, quando, na verdade, morava numa rua qualquer da Massaranduba. Não dava importância a quem dizia que a sua praia era imprópria para banho, ou que, em tempos de chuva, o seu bairro se tornava um dos mais alagados da cidade. Desfez amizades, sem o pesar da consciência, com conhecidos que preferiram se mudar dali para lugares não muito longínquos. Dissera-me, certa vez, que todos os seus antigos namorados foram jovens ribeirinhos. Quanto menos amavam a sua terra, menos ela os amava.
Quando, após anos juntos, eu te pronunciei que não havia mais como continuar o nosso relacionamento, ela me disse: “Vai, vai embora! Você não me entende! Aliás, ninguém me entende. Ninguém sente a brisa da Ribeira como eu sinto. Ninguém ama tanto esses contornos como eu. Ninguém assiste tantos jogos no Campo do Lasca como eu assisto. Pode ir embora! Você não sabe o que é chorar de emoção ao ver a sua terra adorada do alto de um avião. Não sabe o que é se banhar em águas mornas, em pleno meio-dia, e voltar para casa com a sensação de ter rejuvenescido a alma. Não conhece a emoção que pulsa no coração quando, em volta de uma viagem pelo mar, se avista o lugar que se ama. Sei que me tens por louca, ou desvairada, mas, o que sinto por este espaço, você não conseguirá descrever e nem compreender a intensidade de tamanha emoção. Amo a Ribeira como a mãe ama um filho. Amo esta ponta do mapa de Salvador. Amo essa gente, essas ruas, esses costumes. Sei que vai embora daqui, mas também tenho a certeza de que irá guardar cada cheiro, cada sensação, cada lugar e cada gesto que você percebeu aqui. Esse lugar jamais sairá de dentro de você. E é assim que deverá ser. Só assim você irá perceber que tudo o que eu te disse não são devaneios meus, mas percepções. Percepções de quem abre o coração para o amor à terra que tão bem o acolheu. Quando você estiver longe daqui, vai entender o que te digo. Vai sentir falta desse vento, dessa sombra e até mesmo dessa algazarra que encontramos nos finais de semana. Você vai se lembrar de como era bom correr na praia à noite, andar de bicicleta de manhã cedo e almoçar aquela moqueca de camarão em um de nossos restaurantes. Sei que sentirá falta deste pedaço de Brasil. Eu poderia aceitar até uma traição sua, desde que fosse com uma ribeirinha. Mas isso não. Abandonar o nosso lugar já é demais. Vai, vai embora! Você não sabe amar! Achei que o nosso sentimento fosse como o das pinaúnas para com os pés dos nossos banhistas. Mas não! Lembre-se de tudo o que te disse e depois se questione por que você sente algo tão forte quando vê um letreiro de ônibus com o nome deste bairro”.  Após aquele longo discurso, percebi que as suas palavras incutiram em mim a certeza de que todo aquele sentimento pela Ribeira jamais me deixariam, onde quer que eu estivesse.  Ela parecia estar mesmo certa, com a exceção de seus exageros: amor de verdade é aquele à beira do rio.  Que falta me faz a Ribeira!



domingo, 17 de agosto de 2014

Bom dia, Pernambuco

Nutro um amor secreto pelas suas terras e pelo seu povo. Sinto-me agora ainda mais irmanado, ao ver nas ruas da capital gente sua de todos os matizes nos enchendo o peito de esperança.

Não vamos desistir do Brasil.

RF