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Carta ao meu avô

A discreta, efêmera e bem terminada disputa entre familiares e amigos para assumir uma fatia das hastes através das quais conduziríamos o seu caixão, meu grande avô e pai, me encheu outra vez as medidas a respeito da sua importância, neste janeiro agora preenchido de vazio e também demarcador de uma nova era na minha vida. Um afilhado do senhor me encarou firmemente nos olhos e me tomou o lugar. Um primo me reconheceu a disposição para te fazer as honras e me prometeu que te levaria somente até ali, se eu quisesse ele me daria a vez e eu então te carregaria no trajeto final do cortejo. Dei nele um abraço e tentei investidas mais ao fundo, onde os mais velhos te seguravam com afinco, mas desisti quando vi que não tencionavam te largar. Envolvi-me ainda em tácitas negociações com o meu pai e com um tio, mas acabei escanteado. Antes, ainda no velório e também mais afastado, as frequências maiores dos soluços dos enlutados me trouxeram de volta à realidade diversas vezes, cessando em mim...

Carta ao meu filho

Não sei onde você estava em 1993, broto, mas imagino que, não obstante estivesse encarnado ou na recorrente condição de insubstância, certamente ouviu falar, em qualquer canto do mundo, que o Leão abocanhou um vice-campeonato nacional com um time porreta e encheu a todos nós de orgulho. A notícia é que hoje, 20 anos depois, embora seja esta uma conta inteiramente insignificante, fechamos em quinto e também estamos insuportáveis, mas não é bem por isso que te escrevo. Convoco-te antes à leitura porque fui a uma pescaria no fim de semana último. Não crie muitas expectativas, pois, como se sabe, sou um pai carregado de inabilidades e - sei que isso não lhe seria nenhuma surpresa - não peguei nada, nem mesmo alga ou marisco. O ganho com a aventura foi meramente visual, filho, mas não pude deixar de embarcar no rastro daquelas barbatanas reluzentes, cada uma mais movediça do que as outras, e fiquei a imaginar como teria sido se eu vivesse uma vida de tainha, enfeitiçado pela facilidade e p...

Tributo ao escritor

Rafael França Num impulso, um sujeito driblou um aglomerado de senhoras que tietavam o escritor e disse, com a voz embargada: - O senhor é o maior baiano vivo. O senhor nem imagina a importância que tem para a Bahia. A Bahia te adora mais do que o senhor imagina. Tive vontade de fazer coro para com a sua exortação, mas me calei e observei o mestre lhe sorrir ligeiro, recusar amistosamente os elogios e, como quem se revelasse intimamente tocado pelos comentários, refutar dizendo que, por incrível que pareça, é menos reconhecido em Salvador do que noutras paragens internacionais. Em mais uma tentativa de fazer algum bem ao ego do itaparicano, o cidadão ainda balbuciou alguma coisa, mas cambaleou e, rechaçado pela sua própria emoção, se viu estranhamente a caminhar para trás, devotando ainda a João Ubaldo somente alguns gestos indecifráveis com as duas mãos se movendo pelo ar, quase os mesmos que, minutos mais tarde, eu também não saberia como evitar. Passei um longo perío...

Ganhe a América, mas não me faça chorar

Ainda não percebo variarem os matizes do vermelho e do preto que o revestem, então não vá pensando que anda dotado de maior grandeza somente porque anda aprontando poucas e boas pelos campos do Brasil. Pouco me importa se têm falado de você e muito menos ainda o que têm falado. Reconheça-te a ti mesmo, portanto. Saiba se colocar no seu lugar. Aja como homem, antes de tudo. Não aceite os elogios de ocasião, pois nunca antes haviam lhe enxergado a importância. A sua grandeza, isto eu já o havia dito antes, é a grandeza que habita o meu coração. Somente no meu coração e no meu pensamento você seria capaz de ultrapassar o Goiás, o Botafogo, o Grêmio, o Atlético-PR e, ainda que seja matematicamente impossível, até mesmo o Cruzeiro, pois sou eu que sempre vi em você valentia e não houve e nem haverá pra mim agremiação no mundo que possa nos amedontrar. Mas agora vejo que quer me desafiar. Quer desafiar a minha ficção. Quer, finalmente, pôr em prática tudo o que eu bradava para outrém a seu ...

Outra pessoa

Crônica de Armando Oliveira                 Minha grande meta, na outra “encarnação”, é voltar “pessoa jurídica”.                 Porque bem mais difícil que a existência da outra “encarnação”, é ser “pessoa física” neste país.                 “Pessoa jurídica”   pode tudo, sonegar impostos, falir, ressuscitar com razão social diferente, dar calote, responder processo em liberdade, lavar dinheiro no exterior, explorar os funcionários, fazer lobby, organizar cartel, esmagar as concorrentes e o escambau da impunidade.                 “Pessoa jurídica” tanto pode ser pública, quanto privada. Quando pública, geralmente atende pelo vulgo de “ministério”, “secretaria”, “repartição”, “órgão”, “entidade”, “comissão”, “ex...

Só um parágrafo sem pretensão

Honestamente, não tenho pretensão nenhuma mesmo. Tanto é que nem tentarei parecer loquaz. Apenas me deu uma vontade de dar um recado: só quero dizer que amo a nossa existência. Quero só celebrar a nossa existência. Não quero divagar muito, mas quero me referir à existência atemporal. Fazer referência ao ato de ter existido, talvez. À possibilidade pouco exaltada que temos de respirar e de testemunhar a luz. E de testemunhar as cores, as famílias, os amigos, as comidas, o ar, a água, tudo. Eu não quero gastar muitas palavras pra fazer isso, não. Possa ser que eu tenha sentido uma paz divina, possa ser, vá lá. Mas possa ser também que tenha sido só um despertar da consciência, dessas coisas de alma e de energias, e aí talvez fosse necessário invocar os pensadores gregos todos que tentaram entender a nossa essência. Mas não. Só um paragrafinho mesmo. Escrevi porque estava aqui folheando um álbum de fotografias, vendo eu e meus irmãos congelados em imagens coloridas. Nós uns meninos ainda...

Hino ao feriado do azeite de dendê

        - Cuidado com as prevaricações, menino. - Não, mainha, é só um registro. A senhora mesmo viu como eu fiquei babando desde segunda-feira. Aliás, desde segunda-feira, não, minto: tô assim desde quando a senhora se espreguiçou no sofá e disse, há pouco mais de duas semanas, que precisava de um descanso longo, por isso torcia que nos viesse logo a semana santa, e foi aí que eu senti como que um negócio de um estalo na barriga, um alagamento na língua, uma inquietação, uma febre, uma agonia, parecia que nada mais me fosse capaz de agradar o paladar, porque eu fiquei mesmo foi com tesão na oleosidadade de carurus, de vatapás, de feijões fradinhos, de pimentas ardentes, de corvinas, de bacalhaus, de farofas, de pirões, de frigideiras, de vermelhos, de sardinhas, de robalos, de cações, de garoupas harmonizadas, de badejos, de dourados, de camarões e de tudo mais o que não for água ou pedra naquela extensão toda do mar, a senhora viu bem como fiquei, e sab...