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Postagens

Um louco em Itapuã

Diz-se acima de tudo, apesar de haver discordâncias, que ele foi até lá só para ouvir o mar e para sentir o tal do arrepio tão insistentemente melodiado por Caetano. Os circunstantes teriam demorado a notá-lo: ele teria passado grande parte do tempo escondido sob um jornal. A manchete, parece, aludia ao início do horário de verão. Diz-se que ele se encantou com o mar e tirou foto com a famigerada sereia. Burburinhos por aí dizem que ele teria ficado feito um besta, um bobão, contemplando o sol dourando as bundas e admirando os banhistas imergindo n'água e emergindo d'água. Diz-se também, mas ninguém dá conta de provar, que ele beijou o rosto de Cira e lhe confessou com baixa voz ter degustado ali o melhor acarajé da Bahia, perguntando-lhe em seguida qual a procedência daqueles camarões gigantes e, antes mesmo que ela interrompesse o sorriso para responder, emendando com um inquerimento sobre se a cerveja por ali era de fato gelada, porque teria ele muito interesse em se dedicar...

ÍNDIOS

Quando se diz a um infante que quem descobriu o Brasil foi Pedro Alvares Cabral, sabe-se do grau de inverdade por trás desta afirmação. Um menino mais afoito questionará: como ele descobriu se os índios já estavam aqui? Esta discussão histórica serve como intróito para uma tentativa de análise sobre a questão indígena no nosso país. O que todo mundo sabe é que os povos habitantes da chamada Ilha de Vera Cruz quase foram extintos, embora o termo ‘extinto’ não seja o mais adequado. Mas hoje todo mundo sabe que ainda existem resquícios desses povos. E desde o primário ouvimos falar na importância de preservar as tribos indígenas. E ainda tem aquela festa toda no dia 19 de abril, quando a garotada se enfeita toda, mas não tem nem idéia do que sofrem os índios brasileiros. Muitas direções poderiam ser tomadas para escrever esse texto. Podíamos falar de cultura, de elementos antropológicos e de preservação do patrimônio histórico-cultural. Mas falaremos de tudo isso com enfoque jurídico, à l...

De quando escrevem por mim

-         Dificuldades para escrever, amigo? -         Quem é? -         Sou eu, amigo. O seu bloqueio criativo. -         O que você quer? -         Fazê-lo desistir mais rapidamente dessa vida. Agir em silêncio com você, um projeto de escritor fracassado, tem me cansado muito. Você escreve muito mal, mas não encontra nessa vida quem corajosamente lhe diga isso. Eu quero me livrar logo de você. Trate de desistir, portanto. Vejo que está aí nesse computador há horas, tentando escrever. Pretende publicar um texto naquele troço horroroso a que chamam você e mais alguns de blog, não é? -         Quero muito. -         Mas não consegue formar nem mesmo o mais ínfimo dos pensamentos, estou certo? -         Sim. - ...

Antes de nascer o mundo

Quando sofremos frustrações, reinventamos nossa forma de viver, evitando que as tais decepções voltem a ocorrer. Isso é normalmente lógico. Um povo tenta sempre esquecer suas tragédias reeditando sua história. Assim vive o povo moçambicano, tentando esquecer a guerra civil que devastou o país. Aliás, vive como se esse episódio lamentável nunca houvesse acontecido. Quem corrobora essa ideia é Mia Couto, autor moçambicano de repercussão literária mundial. Os vestibulandos, em sua maioria, prefeririam que esse texto fosse sobre “O último voo do flamingo”, também de Couto, pois esse livro consta da lista de leitura de diversos vestibulares. Mas o texto aqui não terá o condão de fazer especialista na literatura moçambicana. É, mais uma vez, uma forma de levar o leitor assíduo ao blog à tentação de ler o livro recomendado. E espera-se que o leitor não resista a esta suculenta maçã. Aprecie sua beleza, se delicie na doçura, conheça o imponderável. “Antes de nascer o mundo” é um livro ...

Era um dia diferente quando não se tinha notícias

No meu tempo de repórter, rum, me extasia ter que lembrar, a redação enlouquecia, quando o mundo não nos abastecia com notícias. Sei que há quem diga, mesmo os que são do ramo, que isso é uma lenda, que notícias se tem todos os dias, porque o mundo não pára de girar e porque os acontecimentos nos são elementos de grandeza irascível, faz parte da vida, a ciência é capaz de explicar e tudo o mais. Digo que não, que é possível inexistirem fatos noticiosos num intervalo de 24 horas, sim, porque a notícia, eu tenho certeza, é uma entidade, um organismo quase vivo que dispõe de vontades próprias e que pode e sabe muito bem fazer uma merecida de uma greve. Quando começo a relatar essa abstinência jornalística para quem muito raramente em minha residência me visita, geralmente o visitante arruma uma desculpa, não faz muitas cerimônias, me toma como mentiroso, me agradece pelo cafezinho e vai embora, desprezando a cordialidade de dona Miríades, minha desde todo o sempre empregada do...

Sobre nossa existência

“Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo.” “O homem não é nada mais do que aquilo que faz a si próprio.” JEAN-PAUL SARTRE Após acordar, temos a exata sensação que ainda estamos vivos, mesmo que raramente reflitamos sobre este fato. E nem sempre também nos perguntamos por que razão mesmo estamos vivos. Quem sou eu? De onde vim? O que estou fazendo aqui? O que representa a vida para mim? Para onde vou? Perguntas difíceis. Para muitos, apenas perguntas retóricas. Muitos fogem dessas indagações por toda a vida e, diriam alguns, vivem utopicamente. Levariam eles uma vida sem sentido? Buscar sentido para as coisas é algo inato do ser humano. Mas não ter resposta é algo que odiamos. E talvez essa seja a causa do distanciamento de grande parte da população a estes questionamentos. É possível ponderar também que na nossa sociedade contemporânea, cuja alcunha de sociedade fast-food cairia como uma luva, os indivíduos querem respostas prontas. Se a ciência não as...

OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO – leitura obrigatória

“Se naquele instante – refletiu Eugênio – caísse na Terra um habitante de Marte, havia de ficar embasbacado ao verificar que num dia tão maravilhosamente belo e macio, de sol tão dourado, os homens em sua maioria estavam metidos em escritórios, oficinas, fábricas… E se perguntasse a qualquer um deles: “Homem, por que trabalhar com tanta fúria durante todas as horas do sol?” – ouviria esta resposta singular: “Pra ganhar a vida”. E no entanto a vida ali estava a se oferecer toda, numa gratuidade maravilhosa. Os homens viviam tão ofuscados por desejos ambiciosos que nem sequer davam por ela. Nem com todas as conquistas da inteligência tinham descoberto um meio de trabalhar menos e viver mais. Agitavam-se na terra e não se conheciam uns aos outros, não se amavam como deviam. A competição os transformava em inimigos. E, havia muitos séculos, tinham crucificado um profeta que se esforçara para lhes mostrar que eles eram irmãos, apenas e sempre irmãos. Na memória de Eugênio soaram as palavr...