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Carta ao meu amigo imortal

Recordar-me de quando lhe vi pela primeira vez, meu grande amigo imortal, me exigiria um desmedido esforço da memória. Eu não saberia lhe precisar a data ou a tarde de verão que marcou o nosso primeiro encontro, mas, acredite, gostei de você logo no primeiro momento. E, mesmo saindo ferido e sofrendo conjuntamente com as intempéries em sua vida, permaneço leal a você. Fomos apresentados, sem cerimônias, pelo meu pai. Ele me levou à sua casa e me pôs à sua frente. Você estava com 96 anos. Na ocasião, como há muito tempo já lhe é habitual, você emprestava a sua majestade a um grupo composto por nativos e por legionários. O grupo utilizava um uniforme que fazia alusão direta a você. A sua existência, até então, era para mim algo magnanimamente incompreensível. Impalpável. Intangível. Aqueles que já o conheciam e que também o admiravam, antes mesmo da nossa primeira apresentação, precipitavam os olhares e os gestos, na expectativa da sua chegada. Eles levantaram. Começaram a aplaudi-lo. A ...

Lua cheia de saudade

Colimei o plenilúnio admirar, Mas na beira do rio só vi foi samburá. Pensei em minha ninfa, chorei profusamente. Sua face em minha mente era insistente. A noite enganou-me, foi uma patranha. O rio escuro tinha era piranha. Mas não sou salaz, Fiz discurso, desapareci fugaz. Resoluto, não tive sintoma de abulia. Vê-la o mais rápido eu queria. Procurei transportes, me fizeram irrisão. Não desistia, doía o meu coração. Avistei na estrada um faceiro petiz. Seguia viagem, fez-me feliz. Na boléia, lembrei do belo saracoteio. Estava sonhando, acordei num tiroteio. Na delegacia o motorista a palrar. Eu, todo perdido, não sabia o que falar. Acabei voltando ao rio piscoso Sem ninfa, sem lua, sozinho e choroso.

Que você cuide do Brasil, então, Dilma Roussef

      Depois de ter elegido, por dois pleitos subseqüentes, um metalúrgico semi-analfabeto, a maioria dos eleitores brasileiros pôs agora uma mulher no cargo majoritário do governo. Um sinal claro de que, por aqui, a democracia caminha a passos largos rumo à sua consolidação. Dilma Roussef, munida de grande maioria no congresso, terá mais quatro anos para dar continuidade aos programas de governo dos quais, como ministra, também fez parte e que, consta da sua biografia, teria sido a principal responsável pela maioria daqueles que tiveram desempenhos satisfatórios, como o inacabado PAC. Dilma administrará um País em acelerado ritmo de crescimento. Os últimos índices econômicos do Brasil já apontam semelhanças com os índices que outrora deram propulsão às economias consolidadas dos países desenvolvidos. O mercado interno com maior poder de compra e de venda, a alta das exportações e a maior oferta de créditos têm feito parte de um processo de retroalimentação do s...

No oceano

Quanta água é essa? Por todos os lados. Em alguns pontos parece azul, em outros verde, em outros eu nem sei dizer. Onde está o horizonte? Como vim parar aqui? Estou em alto-mar? Preciso me acalmar. Para tudo sempre há uma explicação. Mas essa maresia está me matando. O sal parece está incrustado em mim. Não posso desvanecer, senão certamente me afogarei e serei mais um número. Serei um número? Acho que ninguém me encontrará. Neste momento o meu valor é equivalente ao desse peixe que acabou de passar. No meio daquele cardume ele é simplesmente mais um. E eu, nessa imensidão, sou o quê, afinal? Preciso de orientação. Sim, só agora me lembrei que sei determinar os pontos cardeais pelo sol. Mas a minha contestação, tão efusivamente celebrada por mim mesmo, não tem valor nenhum, pois o dia está nublado. Pior, parece que vem chuva. E muita! O desespero está batendo de novo. Será que chegou a minha vez? Mas eu queria saber onde estou, por que estou e quem me colocou aqui. Seria pedir demais...

Pênalti

O árbitro da partida titubeou um pouco. Esticou o pescoço, buscando um melhor ângulo. Olhou para o bandeirinha responsável por aquele lado do campo. Ouviu o clamor que vinha das arquibancadas. Avaliou a expressão do zagueiro. Do atacante de beirada cujo corpo tombara contra o chão da grande área, mediu a esperança depositada em seu olhar. Levou o apito à boca. Esperou pela reação do estádio. Resolveu agir. Soprou, enfim. O pênalti estava marcado. O jogo estava zero a zero e era disputado por um time grande e um time pequeno. O time pequeno jogava em casa. Perdera o primeiro jogo da final por 2x1, na casa do time grande. Esse era, então, o jogo de volta. Pelo regulamento da competição, para consagrar-se como campeão, o time pequeno precisava vencer pelo placar mínimo. Se triunfasse pelo mesmo 2x1, levaria a final para os pênaltis. Qualquer empate daria o título - mais uma vez – ao time grande. O time pequeno nunca fora campeão estadual. Aquela era a sua grande chance. A chance de ir alé...

Carta aos meus amores oníricos

           Quero começar esta carta pedindo-lhes desculpas, meus amores. Desculpas por não especificar os nomes das mulheres da vida real com os quais vocês deveriam ter associadas as suas imagens. Por não lhes descrever, com singularidade nas palavras, tudo aquilo o que presenciei diante de cada uma de vocês. Mas, saibam, vocês foram mais do que imagens embaçadas pelos meus neurônios. E estiveram comigo em abraços, em beijos e em acaloradas madrugadas de amor. Em enigmáticas madrugadas de amor! Vocês assumiram formas tão reais que, nos momentos que antecedem o sono, tenho passado perfume para dormir. Entre tantas outras felicitações - digo isso imaginando possuir a permissão de algumas de vocês -, comemoro o fato atual de não ter me sentido esquecido por algumas colegas de classe, tão esnobes a cada manhã. Algumas delas nada disseram; apenas sorriram. Outras me acenam, ao longe. Desejam-me um “bom dia”. Dizem “boa aula, Rafa”, de modo d...

Onde estão os bons modos?

  Ao longo de uma semana, resolvi observar o comportamento das pessoas na cidade onde moro. Algumas simples expressões, que demonstram o mínimo de educação exigida para se viver bem em sociedade, como “olá”, “boa tarde”, “com licença”, “desculpa”, ou “obrigado”, tem sido cada vez mais raras de serem presenciadas. A causa dessa postura pouco convencional tem sua grande raiz na educação doméstica ineficiente. Bons modos não se restringem apenas a saudações ao chegar ou sair, mas, principalmente, engloba o ato de respeitar as pessoas, ser cordial e praticar simples ações que criem um clima não necessariamente de amizade, mas de fraternidade, que é essencial para o convívio com pessoas que não conhecemos. E o que se pode verificar hoje em dia, infelizmente, são pessoas sem o menor nível de educação e respeito, que agridem seus familiares, maltratam idosos, desprezam pessoas com deficiência e desrespeitam os mais velhos. Nesta mesma semana, em que me propus a fazer essa análise de com...