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No oceano

Quanta água é essa? Por todos os lados. Em alguns pontos parece azul, em outros verde, em outros eu nem sei dizer. Onde está o horizonte? Como vim parar aqui? Estou em alto-mar? Preciso me acalmar. Para tudo sempre há uma explicação. Mas essa maresia está me matando. O sal parece está incrustado em mim. Não posso desvanecer, senão certamente me afogarei e serei mais um número. Serei um número? Acho que ninguém me encontrará. Neste momento o meu valor é equivalente ao desse peixe que acabou de passar. No meio daquele cardume ele é simplesmente mais um. E eu, nessa imensidão, sou o quê, afinal? Preciso de orientação. Sim, só agora me lembrei que sei determinar os pontos cardeais pelo sol. Mas a minha contestação, tão efusivamente celebrada por mim mesmo, não tem valor nenhum, pois o dia está nublado. Pior, parece que vem chuva. E muita! O desespero está batendo de novo. Será que chegou a minha vez? Mas eu queria saber onde estou, por que estou e quem me colocou aqui. Seria pedir demais...

Pênalti

O árbitro da partida titubeou um pouco. Esticou o pescoço, buscando um melhor ângulo. Olhou para o bandeirinha responsável por aquele lado do campo. Ouviu o clamor que vinha das arquibancadas. Avaliou a expressão do zagueiro. Do atacante de beirada cujo corpo tombara contra o chão da grande área, mediu a esperança depositada em seu olhar. Levou o apito à boca. Esperou pela reação do estádio. Resolveu agir. Soprou, enfim. O pênalti estava marcado. O jogo estava zero a zero e era disputado por um time grande e um time pequeno. O time pequeno jogava em casa. Perdera o primeiro jogo da final por 2x1, na casa do time grande. Esse era, então, o jogo de volta. Pelo regulamento da competição, para consagrar-se como campeão, o time pequeno precisava vencer pelo placar mínimo. Se triunfasse pelo mesmo 2x1, levaria a final para os pênaltis. Qualquer empate daria o título - mais uma vez – ao time grande. O time pequeno nunca fora campeão estadual. Aquela era a sua grande chance. A chance de ir alé...

Carta aos meus amores oníricos

           Quero começar esta carta pedindo-lhes desculpas, meus amores. Desculpas por não especificar os nomes das mulheres da vida real com os quais vocês deveriam ter associadas as suas imagens. Por não lhes descrever, com singularidade nas palavras, tudo aquilo o que presenciei diante de cada uma de vocês. Mas, saibam, vocês foram mais do que imagens embaçadas pelos meus neurônios. E estiveram comigo em abraços, em beijos e em acaloradas madrugadas de amor. Em enigmáticas madrugadas de amor! Vocês assumiram formas tão reais que, nos momentos que antecedem o sono, tenho passado perfume para dormir. Entre tantas outras felicitações - digo isso imaginando possuir a permissão de algumas de vocês -, comemoro o fato atual de não ter me sentido esquecido por algumas colegas de classe, tão esnobes a cada manhã. Algumas delas nada disseram; apenas sorriram. Outras me acenam, ao longe. Desejam-me um “bom dia”. Dizem “boa aula, Rafa”, de modo d...

Onde estão os bons modos?

  Ao longo de uma semana, resolvi observar o comportamento das pessoas na cidade onde moro. Algumas simples expressões, que demonstram o mínimo de educação exigida para se viver bem em sociedade, como “olá”, “boa tarde”, “com licença”, “desculpa”, ou “obrigado”, tem sido cada vez mais raras de serem presenciadas. A causa dessa postura pouco convencional tem sua grande raiz na educação doméstica ineficiente. Bons modos não se restringem apenas a saudações ao chegar ou sair, mas, principalmente, engloba o ato de respeitar as pessoas, ser cordial e praticar simples ações que criem um clima não necessariamente de amizade, mas de fraternidade, que é essencial para o convívio com pessoas que não conhecemos. E o que se pode verificar hoje em dia, infelizmente, são pessoas sem o menor nível de educação e respeito, que agridem seus familiares, maltratam idosos, desprezam pessoas com deficiência e desrespeitam os mais velhos. Nesta mesma semana, em que me propus a fazer essa análise de com...

Em noite do PSOL, venceu o futebol

À exceção do que pensam os eleitores decididos – e aficionados - pelos demais candidatos e a grande mídia nacional, o resultado do debate promovido pela TV Bandeirantes, que concorria com a semi-final da Taça Libertadores, transmitida pela TV Globo no mesmo horário, ontem à noite, não deixou dúvidas: vitória convincente do candidato Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL. O debate promovido pela BAND serviu a Plínio como holofote, e a tendência a partir de agora é que a sua candidatura possa enfim ser impulsionada a ganhar maior visibilidade. O candidato mostrou-se sempre incisivo em suas colocações, todas elas absolutamente heterodoxas em comparação aos mornos discursos de Dilma, de Serra e de Marina, embora, para muitos, a sua insistência em denunciar o preconceito contra o PSOL tenha ficado mais evidente. Plínio falou diretamente à maioria pobre da população, tocando em pontos fulminantes, como distribuição igualitária de renda e reforma agrária, uns dos tópicos mais clássicos da bande...

DEBATE ELEITORAL

É ano par, ano eleitoral. Então vai ter debate. E o debate serve para a discussão de ideias, para o confronto dos programas, para elucidação das ideologias, para o eleitorado conhecer os candidatos. Obviamente, o debate político ganhou espaço na conjuntura brasileira a partir do processo de redemocratização. O povo tem, através dos veículos da mídia, a oportunidade de embasar e consolidar o voto. Tudo isso na teoria é muito bonito, mas na prática existem muitas discrepâncias. Acho que pouquíssimas pessoas decidem os seus votos pelos debates. E as que fazem isso, não o fazem pela boa performance política, mas pelos trejeitos de populista e comunicador dos candidatos. Já houve debates memoráveis na história do Brasil. Lula, atual presidente da nação, foi protagonista de muitos deles. Enfrentou Collor, Brizola, Fernando Henrique, José Serra, Alckmin e Cia. Algumas dessas discussões foram profícuas para o povo brasileiro, mas acredito que a maioria deixou a desejar. Lembro a campanha presi...

Sobre confiar

Por que os seres humanos não são confiáveis? “Porque o ser humano é falho”, seria uma resposta plausível. Na bíblia, no livro do profeta Jeremias, há um versículo que diz: “Maldito o homem que confia no homem”. Não podemos confiar em ninguém; seria mesmo essa a conclusão mais lógica? O homem pode enganar, trair, dissimular, falsificar, engodar e mudar a qualquer momento. Ou seja, não há santos por aqui! Nem o mais coerente e mais correto está livre de cometer bobagens. Essa é a essência humana. Por quem você colocaria a mão no fogo? Essa é uma pergunta retórica, acredito eu. Tentei imaginar uma lista de pessoas, mas só lembrei alguns nomes e mesmo assim, acho que ainda tenho ressalvas. A confiança, de modo geral, é estabelecida pelos laços afetivos. Normalmente, confiamos mais em nossos pais, cônjuges, amigos, parentes e em líderes espirituais. Ao longo da jornada, descobrimos que nossos pais não são perfeitos. Consequentemente, entendemos que aquela pessoa tão amável e querida (esposo...